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Cirurgião plástico membro da SBCP é preso em flagrante por suspeita de usar silicone industrial em procedimentos estéticos em pacientes

Publicada em 26/03/26 às 17:58h - 25 visualizações

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Cirurgião plástico membro da SBCP é preso em flagrante por suspeita de usar silicone industrial em procedimentos estéticos em pacientes

Cirurgião plástico usava influenciadores para captar pacientes, dizia que usava produto regularizado na Anvisa, mas, mas aplicava silicone industrial, substância proibida para uso em humanos.

Na última terça-feira, 24 de março, o cirurgião plástico João Fernando dos Santos Mello, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), foi preso em flagrante em Porto Alegre quando se preparava para aplicar realizar um procedimento estético em uma paciente.

A força-tarefa formada por fiscais da Vigilância Sanitária Municipal, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul encontrou diversas irregularidades na clínica do cirurgião, incluindo produtos clandestinos, rótulos adulterados e até cola de secagem instantânea. O conjunto de materiais apreendidos reforça a suspeita de que o médico se valia do nome de produtos regularizados na Anvisa, como o Linnea Safe, para encobrir a aplicação de substâncias clandestinas.

Duas vítimas são moradoras de Porto Alegre (RS), identificadas aqui como Jessica e Cecília, por medo de exposição e retaliação. Segundo elas, conheceram o trabalho do cirurgião plástico João Fernando dos Santos Mello por meio de postagens de influenciadoras que exibiam antes e depois, destacando sempre os "resultados naturais”.

Jessica e Cecília explicam que as influenciadoras indicavam o médico como um cirurgião plástico, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, extremamente qualificado para realizar o procedimento chamado de bioplastia. O médico, por sua vez, informava que o procedimento era seguro, que usava produtos regularizados na Anvisa. No entanto, exames de imagem realizados pelas pacientes lesadas apontam que se trata de produto não adequados, com características de silicone industrial, substância imprópria para uso humano, comumente associada complicações graves.

Influenciadoras como vitrine

De acordo com as vítimas, o médico-cirurgião plástico se apoiava em influenciadoras para reforçar sua reputação e ampliar o alcance da captação de pacientes. Elas exibiam resultados, marcavam o perfil do cirurgião, indicavam a clínica e, em alguns casos, relatavam ter realizado procedimentos com ele. Para quem assistia aos conteúdos, o pacote parecia perfeito: médico, especialista em cirurgia plástica, membro da SBCP produto registrado na Anvisa e influenciadoras “garantindo” o resultado.

Jessica, 27 anos, procurou o cirurgião para uma bioplastia glútea depois de acompanhar publicações que mostravam casos de “reconstrução” e “harmonização corporal”. Na consulta, o médico explicou os detalhes do procedimento, assegurou que o produto, da marca Linnea Safe, tinha registro na Anvisa e era adequado para a bioplastia. Durante o procedimento, porém, estranhou a cor do material, questionou o médico e ouviu que seria o mesmo produto, apenas com “densidade menor”. Dias depois, um exame de imagem comprovou que o produto implantado tinha características compatíveis com silicone industrial.

Cecília relata trajetória semelhante. Ela agendou o procedimento com o mesmo cirurgião e diz ter chegado à clínica encontrando apenas o médico, sem equipe de apoio. O procedimento foi feito em 4 de agosto do ano passado. “Passei muito mal. Depois ficou bem deformado e ele falou que teria que aplicar mais produto para ficar igual”. Assim como Jessica, Cecília afirma ter confiado no profissional pela combinação de currículo e visibilidade: “A gente não fez o procedimento por preço. Fizemos pela profissão dele”.

Médico da SBCP, áudios e promessa de produto regularizado na Anvisa

João Fernando dos Santos Mello é médico de formação, especialista em cirurgia plástica e membro da SBCP, além de estar ativamente registrado em três Conselhos Regionais de Medicina do país.

Em áudios enviados às pacientes, ele afirma que comprava o produto “há anos” de um distribuidor e que suspendeu a compra quando surgiram problemas. Em outra gravação, diz que encaminharia o caso “para a empresa que vende o produto” e admite a necessidade de cirurgia para remoção do material.

Para as vítimas, os títulos de especialista e a filiação à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica funcionaram como um aval que reduziu a desconfiança e silenciou alertas que hoje parecem óbvios. O uso de influenciadoras, somado a essa chancela técnica, criou um ambiente em que as pacientes se viam não como consumidoras em risco, mas como beneficiárias de uma “oportunidade” de um procedimento seguro.

Silicone industrial, mercado clandestino e o PMMA como bode expiatório

O uso de produtos clandestinos em procedimentos médicos é considerado crime contra a saúde pública, previsto no artigo 273 do Código Penal.

O silicone industrial, possivelmente utilizado pelo médico, é produto destinado a usos mecânico e não deve ser utilizado em humanos.A aplicação de silicone industrial no corpo humano é sabidamente causadora de complicações gravíssimas, além de sujeitar a pessoa a um procedimento cirúrgico de grande complexidade para sua extração, deixando marcas e sequelas muitas vezes permanentes.

Ainda assim, alimenta um mercado clandestino de procedimentos estéticos, em que pessoas oportunistas se valem do nome de produtos regularizados na Anvisa, como dos produtos à base de PMMA, para encobrir a aplicação de substâncias proibidas.

Tal como Jéssica e Cecília, o Linnea Safe também foi vítima do cirurgião plástico, pois a marca do produto era usada no discurso de convencimento das pacientes, enquanto o que foi implantado eu seus corpos era possivelmente silicone industrial.

Para o advogado Nelson Albino Neto, representante da Lebon Farma, fabricante do Linnea Safe, "o uso da marca de produtos regularizados em situações criminosas como essa, distorce o debate público, transferindo a culpa por agravos a saúde das pacientes a um produto regularizado na Anvisa, sequer utilizado no procedimento”.

Nelson Albino Neto diz ainda que os produtos à base de PMMA são invariavelmente apontados na mídia como os causadores de eventos graves de pacientes, quando não se sabe ao certo se foram utilizados, se o profissional responsável pelo procedimento era qualificado para sua realização.

"A segurança para um procedimento estético não vem de influenciadores ou de redes sociais, mas sim de profissionais sérios e qualificados, que utilizam produtos seguros e regularizados perante a Anvisa", ressalta Nelson Albino Neto.

O caso do cirurgião preso em Porto Alegre expõe uma combinação explosiva: título de especialista, associação de classe, uso de influenciadoras como vitrine, produto autorizado pela agência reguladora no discurso e, no bastidor, a aplicação de uma substância clandestina com alto potencial de dano. Para Jessica, Cecília e tantas outras pacientes que confiaram nessa engrenagem, sobram dor, medo, exames, possíveis cirurgias de retirada e a sensação de terem sido usadas como público‑alvo de um marketing que começava nas redes sociais e terminava dentro do centro cirúrgico.




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